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Arte

Artes plásticas: morre a pintora campista Lucia Laguna, aos 85 anos

Artista nascida em Campos dos Goytacazes construiu carreira internacional após a aposentadoria e transformou paisagens do subúrbio carioca em pintura

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

As artes plásticas brasileiras se despedem da artista campista Lucia Laguna, que morreu nesta segunda-feira, dia  21, aos 85 anos, em sua casa, na cidade do Rio de Janeiro. Nascida em Campos dos Goytacazes, em 1941, a pintora construiu uma trajetória singular na arte contemporânea brasileira, marcada pela observação das paisagens do subúrbio carioca, pela sobreposição de formas e cores e pela transformação de elementos cotidianos em composições pictóricas. A morte foi confirmada nesta terça-feira, pela galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, que representava a artista.

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A notícia teve repercussão no circuito artístico e cultural brasileiro, com homenagens e registros sobre a trajetória de uma artista que alcançou reconhecimento nacional e internacional depois de iniciar a carreira nas artes já adulta. O Museu de Arte de São Paulo (MASP), onde Laguna realizou a exposição individual “Lucia Laguna: Vizinhança”, em 2018, mantém em seu acervo uma de suas obras produzidas naquele contexto. A morte também foi registrada por instituições e veículos especializados em cultura e arte.

Da sala de aula para a pintura
Antes de se tornar conhecida no circuito das artes plásticas, Lucia Laguna teve uma longa trajetória como professora. Formada em Letras, trabalhou durante décadas com literatura portuguesa, literatura brasileira e literatura latina. Depois de se aposentar do magistério, em 1994, passou a frequentar cursos de pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Entre seus professores esteve o artista britânico Charles Watson.

A relação com a pintura ganhou uma nova dimensão quando Laguna passou a observar de maneira sistemática a paisagem que via da janela de sua casa-ateliê, em São Francisco Xavier, na Zona Norte do Rio. O morro da Mangueira, jardins, casas, telhados, muros, fios elétricos e outras estruturas da paisagem suburbana passaram a integrar seu repertório visual. Esses elementos, porém, não eram simplesmente reproduzidos: eram reorganizados, sobrepostos e transformados na tela.

A pintura de Laguna desenvolveu uma relação constante entre o reconhecível e o abstrato. A artista trabalhava com camadas de tinta, apagamentos, formas geométricas e diferentes planos de representação. O resultado eram paisagens fragmentadas, nas quais elementos arquitetônicos e naturais conviviam com áreas de abstração. A própria janela de seu ateliê se tornou uma espécie de ponto de partida para uma obra que incorporava aquilo que estava próximo e, ao mesmo tempo, transformava essa realidade em outra construção visual.

Reconhecimento no Brasil e no exterior
A carreira de Lucia Laguna ganhou projeção a partir dos anos 2000. Em 2006, ela recebeu o Prêmio Marcantonio Vilaça, reconhecimento importante no circuito da arte contemporânea brasileira. Ao longo dos anos seguintes, participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, incluindo a 30ª Bienal de São Paulo, em 2012. Suas obras passaram a integrar coleções de instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Museu de Arte do Rio e o MASP.

Em 2018, o MASP apresentou “Lucia Laguna: Vizinhança”, exposição individual que reuniu 21 trabalhos produzidos entre 2012 e 2018 e organizados a partir de três núcleos recorrentes na produção da artista: Jardins, Paisagens e Estúdios. A mostra levou para dentro do museu a relação que Laguna havia estabelecido entre seu ateliê, a vizinhança e a paisagem vista de sua janela.

Um dos trabalhos produzidos para aquela exposição foi “Paisagem n. 114 (MASP)”, de 2018. A obra incorporou referências ao próprio edifício do museu, elementos do jardim da artista e imagens relacionadas a obras da coleção do MASP. O trabalho foi posteriormente incorporado ao acervo da instituição por doação da própria artista.

Nos anos seguintes, Laguna manteve a produção e a circulação internacional de seu trabalho. Entre suas exposições individuais estão apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa e Londres. Em 2025, realizou “A Propósito de duas janelas”, em São Paulo, e, em 2026, apresentou a exposição individual “Apenas meus cabelos brancos…”, na Galerie Lelong, em Nova York, mostrando que sua produção continuava presente no circuito internacional pouco antes de sua morte.

A artista que levou Campos para o mundo da arte
Embora tenha construído sua vida profissional e artística no Rio de Janeiro, Lucia Laguna carregou em sua trajetória a origem campista. Nascida em Campos dos Goytacazes em 1941, tornou-se um dos nomes de projeção da pintura contemporânea brasileira e desenvolveu uma linguagem própria a partir da observação do cotidiano, da arquitetura e da paisagem urbana.

Sua morte encerra uma trajetória que começou nas salas de aula e ganhou novos caminhos depois da aposentadoria, quando a literatura e a experiência como professora deram lugar à pintura. O trabalho desenvolvido a partir da janela de sua casa-ateliê transformou uma paisagem cotidiana em matéria para uma produção reconhecida por museus, galerias, críticos e colecionadores no Brasil e no exterior.

O velório de Lucia Laguna aconteceu no Rio de Janeiro, seguido da cerimônia de cremação. A artista deixa uma filha e dois netos.

As artes plásticas se despedem da campista Lucia Laguna, aos 85 anos
Foto: Lucia Laguna Jardim n. 54, 2021 /Reprodução
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