A morte do servidor público Lucas Nunes Hardie, de 40 anos, após um grave acidente de moto, deu lugar a um gesto capaz de alcançar outras famílias. Técnico em radiologia e morador de Macaé, ele se tornou doador múltiplo de órgãos e tecidos, com captação realizada no Hospital Público Municipal (HPM) .
Lucas havia sido aprovado em concurso público e trabalhava no Pronto-Socorro Municipal. No dia mês passado, sofreu uma grave colisão a apenas quatro minutos de casa. A morte foi confirmada em 9 de setembro.
No dia seguinte, foi realizado o procedimento para captação de coração, fígado, rins, pâncreas, córneas e ossos. O coração, que exige condições específicas de compatibilidade e transporte, deixou Macaé de helicóptero ainda no mesmo dia.
A autorização para a doação foi assinada pela irmã de Lucas, Lidiane Nunes, justamente na data de seu aniversário. Além de lidar com a perda do irmão, que deixou uma filha de 11 anos e a mãe, ela também precisou enfrentar a resistência inicial de parte da família.
Parte da família tinha um tabu, queria prolongar a situação a qualquer custo. Minha pergunta para eles foi direta: por que não doar? A vontade dele era essa, relata.
Segundo Lidiane, a experiência mudou a percepção da família sobre o tema.
A gente só tem noção da importância da doação quando acontece dentro da nossa casa. Não levamos nada daqui, mas temos a oportunidade de deixar outras pessoas vivas, complementou.
O caso ganha destaque no período em que o país lembra o Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, e chama atenção para um dos pontos centrais do processo: a autorização dos familiares.
Taxa de aceite em Macaé chega a 55,5%
No HPM, a taxa de autorização familiar nos casos considerados viáveis para doação é de 55,5%, acima da média do Estado do Rio de Janeiro, de 33%.
A recusa familiar, no entanto, segue como um dos principais entraves para a realização dos procedimentos.
Para Waneska Madeira, coordenadora da Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (e-DOT) de Macaé, o acolhimento aos parentes tem papel importante nesse processo.
Essa taxa de 55,5% de aceite familiar está diretamente ligada ao compromisso humanizado da nossa equipe. Estar ao lado dos parentes, esclarecer dúvidas e dar o suporte necessário no momento do luto faz toda a diferença para que o desejo do doador seja respeitado, afirma.
O tema também será discutido nesta segunda-feira, dia 28, e terça-feira, dia 29, durante o Congresso Municipal de Conscientização, realizado pela e-DOT na Câmara de Macaé. Com o tema “Doar é transformar uma despedida em novos começos”, o evento será realizado das 9h às 15h, com entrada gratuita e aberta à comunidade. As inscrições podem ser feitas pelo link disponível na bio do Instagram @edotmacae.
Para Lidiane, a decisão tomada pela família ajuda a dar outro significado à perda.
A mensagem que fica é simples: doem órgãos e salvem vidas. Uma única pessoa pode transformar a história de várias famílias. Saber que meu irmão continua presente em outros corpos é o que traz consolo, conclui.
Fachada do Hospital Público Municipal (HPM) (Foto: Arquivo/SECOM)
ATUALIZADO ÀS 13h21 •
Alysson Nogueira[ + ] — Diretor de Redação do NF10. Jornalista e comunicador apaixonado por histórias que conectam pessoas, instituições e comunidades. • Sugira uma correção: Notou algum erro ou deseja reportar uma atualização? Fale com a redação