A cidade de Campos dos Goytacazes enfrenta um cenário persistente de abandono, especialmente quando se trata do patrimônio histórico, com monumentos deteriorados e ausência de políticas públicas de preservação. A situação voltou a ganhar destaque em 21 de abril de 2026, feriado nacional em homenagem a Tiradentes, símbolo da memória brasileira.
Clique aqui para seguir o canal do NF10 no Telegram
Dois anos após a retirada do monumento para reparos, a estátua do inconfidente segue fora da Praça Batalhão Tiradentes, no Centro, depois de ter sido alvo de vandalismo em 2023, quando teve a cabeça arrancada durante a madrugada. O caso reforça críticas de moradores, especialistas e entidades sobre a negligência com bens culturais no município.
Procurada, a Prefeitura informou que a manutenção de praças está em análise pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Após essa etapa, os serviços devem ser iniciados em diferentes pontos da cidade.
Sobra descaso com o patrimônio
O problema vai além de um único monumento. Entre os exemplos mais emblemáticos está o antigo casarão do Asilo do Carmo, também conhecido como Solar de Santo Antônio. Construído em 1846 e tombado pelo Iphan, o imóvel está desativado há mais de 25 anos e apresenta sinais avançados de deterioração, com risco estrutural após décadas sem manutenção.
Outro caso simbólico é o Hotel Amazonas, edificação do século XIX ligada ao ciclo açucareiro, que perdeu sua função ao longo do tempo e segue sem uso ou recuperação consistente. Situação semelhante vive a Lira de Apolo, importante marco cultural inaugurado em 1912, parcialmente destruído por um incêndio em 1990 e, desde então, à espera de restauração.
Outros patrimônios também acumulam problemas estruturais, infiltrações e abandono, como o Solar da Baronesa, o Solar dos Airizes e o Museu Olavo Cardoso. O cenário se estende às áreas públicas: praças históricas do Centro apresentam desgaste evidente, com mobiliário deteriorado e manutenção irregular das áreas verdes. O coreto da Praça do Liceu foi fechado por tapumes para afastar a população de rua, mas sem qualquer plano efetivo de uso e manutenção.

Entre o abandono e a preservação
Apesar do quadro crítico, há exemplos que demonstram o potencial de preservação quando há investimento e destinação adequada. O Liceu de Humanidades de Campos, instalado em um solar do século XIX, mantém uso contínuo e conservação, preservando sua importância histórica. O mesmo ocorre com o Museu Histórico de Campos, que segue ativo como espaço cultural no Centro da cidade.
Outro caso que ilustra um cenário dúbio é o Chafariz Belga, na Praça São Salvador, um dos principais cartões-postais da cidade. O monumento passou por restauro com intervenções modernas e, ao longo do tempo, acabou cercado e descaracterizado, além da perda de arborização no entorno. As mudanças levantam questionamentos sobre planejamento, critérios de preservação e o impacto na fruição de um dos mais importantes marcos culturais do município.
Contraste evidente
Exemplos não faltam Brasil a fora nas políticas de preservação histórica, onde estruturas que recebem atenção e função contínua, permanecem preservadas, enquanto aquelas sem destinação definida caminham para a degradação e o empobrecimento do local.
Em uma cidade com relevância histórica e econômica, o abandono compromete não apenas a memória coletiva, mas também o potencial turístico e de desenvolvimento. Mais do que uma questão estética ou cultural, trata-se de um alerta. A falta de políticas consistentes de preservação em Campos dos Goytacazes revela um ciclo de negligência que, se não for interrompido, pode resultar na perda irreversível de parte significativa da identidade da cidade.


