O cenário dos dois principais equipamentos culturais de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, está no centro das discussões após a Câmara Técnica de Teatro divulgar um manifesto denunciando o que classifica como um quadro de abandono dos teatros públicos da cidade. O documento, assinado por artistas, produtores, técnicos, professores, estudantes, companhias e trabalhadores da cultura, cobra da Prefeitura de Municipal de Campos e da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), responsável pelos locais, providências imediatas para recuperar o Teatro Municipal Trianon e o Teatro de Bolso Procópio Ferreira.
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Para a classe artÃstica, a situação já ultrapassou o campo dos transtornos e passou a comprometer a própria sobrevivência da produção cultural no municÃpio. Espetáculos são cancelados, temporadas deixam de acontecer, grupos ficam sem locais para ensaiar e artistas acumulam prejuÃzos diante da falta de condições adequadas para utilização dos espaços públicos.
O principal problema apontado é a paralisação do Teatro Trianon em razão da falta de funcionamento do sistema de ar-condicionado. No manifesto, a Câmara Técnica exige que o municÃpio apresente um cronograma público para solucionar definitivamente o problema, além de garantir maior transparência sobre as medidas que estão sendo adotadas.
Já o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, considerado um dos principais palcos para produções locais, também é alvo de crÃticas. O documento aponta a necessidade de investimentos em climatização, acessibilidade, instalações elétricas, iluminação, sonorização, camarins, banheiros e segurança, além da recuperação da estrutura fÃsica do prédio.

Cancelamentos e prejuÃzos
Os reflexos da situação já atingem diretamente quem vive da cultura. A diretora da Cia de Arte Persona e integrante da Câmara Técnica de Teatro, Tânia Pessanha relata que a companhia teve a temporada do espetáculo “Cafonália”, prevista para abril deste ano no Teatro Trianon, cancelada poucos dias antes da estreia. Segundo ela, a informação recebida era de que o teatro permaneceria fechado até o fim do primeiro semestre para a recuperação do sistema de climatização.
Foi um golpe gravÃssimo na vida artÃstica e financeira da companhia. Toda uma temporada planejada precisou ser interrompida. O prazo passou e nenhuma solução foi apresentada, afirma.
Ela conta que integrantes da Câmara Técnica buscaram informações sobre o andamento do processo e receberam a notÃcia de que a contratação do serviço ainda depende de licitação.
Enquanto isso, o Teatro de Bolso também enfrenta problemas estruturais, o que, na avaliação da diretora, deixa a classe artÃstica praticamente sem alternativas.
Os membros do grupo precisam de respostas. Os teatros vão ficar mesmo sem condições de uso? Não é possÃvel manter produções artÃsticas sem pelo menos a garantia do espaço, pontua.
Com 56 anos dedicados à arte e prestes a celebrar os 30 anos da Cia Persona, em 2027, Tânia diz viver um dos momentos mais preocupantes da carreira.
Estamos correndo o risco de não ter teatro para comemorar uma história construÃda ao longo de três décadas, lementa.

Problema antigo
A situação dos teatros públicos de Campos não começou agora. O Teatro de Bolso passou anos fechado para obras iniciadas em 2021. Na ocasião, a Fundação Cultural informou que realizou intervenções no telhado, impermeabilização, pintura, melhorias na caixa cênica e instalação de aparelhos de ar-condicionado em parte da estrutura, além da previsão de modernização técnica em parceria com o Governo do Estado. Mesmo após a reabertura, artistas afirmam que diversos problemas permaneceram e que o espaço nunca voltou a oferecer condições ideais para receber espetáculos.
Já o Teatro Municipal Trianon passou por uma reforma em 2022. Entretanto, poucos anos depois, voltou a enfrentar problemas que hoje impedem seu pleno funcionamento, principalmente em razão da falha no sistema de climatização.
Para os representantes da Câmara Técnica, a sucessão de problemas demonstra a falta de um planejamento contÃnuo de manutenção dos equipamentos culturais do municÃpio.
Patrimônio cultural ameaçado
No manifesto, os artistas lembram que o Teatro Trianon e o Teatro de Bolso não são apenas prédios públicos, mas patrimônios da cultura campista, responsáveis pela formação de gerações de artistas, pela circulação de espetáculos e pelo acesso da população às atividades culturais.
Além da recuperação das estruturas, a Câmara Técnica pede que a Prefeitura estabeleça um canal permanente de diálogo com a classe artÃstica, apresente um cronograma público das intervenções e adote uma polÃtica de manutenção preventiva para evitar que os problemas se repitam.
Segundo o documento, investir nos teatros é garantir que a produção cultural da cidade continue existindo, preservando espaços que fazem parte da história de Campos e que cumprem papel fundamental na formação, na economia criativa e na democratização do acesso à cultura.
Em resposta ao Portal NF10, a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) informou que deu inÃcio a um processo de Parceria Público-Privada (PPP) para a aquisição de um novo sistema de ar-condicionado para o Teatro Municipal Trianon. No entanto, a fundação não informou em que fase está o processo, nem apresentou prazos para a instalação do equipamento e a reabertura do espaço.
Sobre o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, a FCJOL afirmou que, no perÃodo pós-pandemia, foi realizado um levantamento das necessidades estruturais do prédio pela Secretaria Municipal de Obras. Segundo a fundação, o projeto para as intervenções está em andamento, considerando as caracterÃsticas de um equipamento cultural em funcionamento desde 13 de abril de 1968.
A resposta, entretanto, não esclarece quando as obras serão iniciadas, qual o cronograma previsto para execução dos serviços, quais intervenções serão realizadas, nem responde à s demais reivindicações apresentadas pela Câmara Técnica de Teatro, sobretudo a abertura do diálogo com a classe artÃstica e os impactos causados pelos problemas estruturais nos equipamentos culturais.


