Sempre que se aproxima a Festa do SantÃssimo Salvador, a população volta a perguntar quais serão as atrações da principal celebração de Campos dos Goytacazes, maior cidade do Norte Fluminense e uma das mais ricas do estado do Rio de Janeiro. A expectativa em torno da programação também reacende o debate sobre a utilização do Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop). ConstruÃdo para concentrar grandes espetáculos, o complexo deixou de ocupar o protagonismo na agenda cultural do municÃpio e voltou ao centro das discussões sobre a destinação de equipamentos públicos de grande porte.
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As obras do Cepop começaram em 2010, e o complexo foi inaugurado em 2012, durante a gestão da então prefeita Rosinha Garotinho. O local recebeu o nome do escritor e pesquisador campista Osório Manoel Peixoto da Silva (1931–2006), que dedicou grande parte de sua trajetória à preservação da memória e ao resgate da história de Campos dos Goytacazes. Mais de uma década após a inauguração, o equipamento que leva seu nome permanece sem utilização contÃnua, cenário que contrasta com o legado deixado pelo historiador.
O projeto surgiu como a maior infraestrutura para eventos do interior do estado do Rio de Janeiro. O espaço foi concebido para receber desfiles das escolas de samba, carnaval fora de época, shows nacionais, festivais, feiras, exposições e eventos institucionais. A estrutura conta com arquibancadas, camarotes, palco, áreas de apoio, estacionamento e capacidade para receber dezenas de milhares de espectadores.
A construção representou um dos maiores investimentos públicos da história recente do municÃpio. Orçado inicialmente em aproximadamente R$ 80 milhões, o empreendimento teve o custo ampliado durante a execução e foi entregue por cerca de R$ 100 milhões. À época, o projeto foi concebido para impulsionar o turismo, movimentar a economia local, atrair grandes produções artÃsticas e reduzir os impactos provocados por eventos de grande porte realizados no Centro da cidade.
Mais de uma década depois, a realidade é diferente da projetada durante a inauguração. O Cepop passou a registrar longos perÃodos sem atividades e recebeu apenas eventos esporádicos. Nesse intervalo, reportagens registraram furtos de cabos elétricos, atos de vandalismo, desgaste das estruturas, necessidade de manutenção e intervenções para recuperação de diferentes áreas do complexo.
Em 2025, a Prefeitura de Campos dos Goytacazes colocou em leilão o arco metálico do palco principal do Cepop, com lance inicial de R$ 50 mil. A administração informou que a retirada da estrutura abriria espaço para a implantação da Escola Municipal de Expressão ArtÃstica e Cultural. Realizado em 5 de maio daquele ano, o leilão terminou sem interessados, e o arco não recebeu nenhum lance, episódio que ampliou o debate sobre o futuro do complexo e a descaracterização de um equipamento concebido para sediar grandes espetáculos.

Carnaval também perdeu protagonismo
A discussão sobre a utilização do Cepop também passa pela trajetória recente do carnaval de Campos dos Goytacazes. Inaugurado em 2012 justamente para receber os desfiles das escolas de samba e consolidar o chamado Campos Folia. Nos primeiros anos, o espaço recebeu desfiles de escolas de samba locais e apresentações de agremiações do carnaval carioca, consolidando-se como palco da festa.
A partir de 2015, no entanto, o carnaval passou a enfrentar sucessivos cancelamentos, mudanças de formato e redução dos investimentos públicos. Em 2016, os desfiles ocorreram sem subvenção municipal e, nos anos seguintes, deixaram de ser realizados de forma contÃnua. Em 2022, as escolas voltaram a se apresentar em um formato simbólico, sem os tradicionais desfiles competitivos. Nos anos mais recentes, a programação oficial passou a priorizar blocos de rua, bois pintadinhos e apresentações musicais distribuÃdas por diferentes pontos da cidade.
Com a perda da regularidade do carnaval e a ausência de um calendário permanente de grandes eventos, o Cepop deixou de exercer a função para a qual foi planejado. O espaço passou a receber apenas eventos pontuais, como o desfile cÃvico de 7 de Setembro, mantendo-se distante do projeto original que justificou sua construção.

Praça e suas limitações
Enquanto o Cepop permanece praticamente fora do calendário permanente de eventos, a Praça do SantÃssimo Salvador continua sendo utilizada para receber eventos com grande público. O local, considerado o coração histórico de Campos dos Goytacazes, reúne a Catedral BasÃlica Menor do SantÃssimo Salvador, o Museu Histórico de Campos, o Hotel Gaspar e o prédio sesquicentenário da Sociedade Musical Lyra de Apollo.
A tradicional Festa do SantÃssimo Salvador é realizada anualmente em agosto e tem seu ponto alto no dia 6, data dedicada ao padroeiro de Campos dos Goytacazes. Considerada uma das celebrações religiosas mais antigas do estado do Rio de Janeiro, a festividade integra a identidade histórica do municÃpio há quase quatro séculos. A programação reúne missas, novenário, procissões, feiras itinerantes e o tradicional Festival de Doces, atraindo milhares de fiéis, moradores e visitantes todos os anos.
A configuração atual da Praça do SantÃssimo Salvador é resultado da ampla reforma executada entre 2005 e 2006, iniciada na gestão do então prefeito Arnaldo Vianna e concluÃda durante o governo de Alexandre Mocaiber. A intervenção substituiu grande parte dos jardins por extensas áreas pavimentadas em granito, modificando a paisagem de um dos principais cartões-postais de Campos dos Goytacazes. Desde então, arquitetos, urbanistas e moradores discutem os impactos da redução da arborização e da diminuição das áreas de sombra em um dos espaços públicos mais movimentados da cidade.
Quase duas décadas após a reforma, a praça apresenta sinais visÃveis de desgaste. Em diversos trechos, o piso exibe rachaduras e peças quebradas, enquanto os revestimentos dos canteiros apresentam fissuras e partes danificadas. Também são observados meios-fios sem pintura, desgaste do mobiliário urbano e palmeiras imperiais com sinais aparentes de estresse hÃdrico, em um ambiente marcado pela ampla impermeabilização do solo e pela reduzida cobertura vegetal.
Ao longo dos últimos anos, a praça também passou por sucessivas intervenções para receber grandes eventos promovidos pelo poder público. Em 2022, por exemplo, parte do piso de granito precisou ser perfurada para a instalação da estrutura da Feira de Preços Especiais (FEPE), medida que gerou crÃticas de entidades ligadas ao patrimônio histórico e de moradores devido aos impactos em um dos espaços mais emblemáticos do Centro Histórico.
O local recebe, com frequência, estruturas metálicas, barraquinhas, miniparques, brinquedos, decoração natalina, gradis, palcos e equipamentos de grande porte para shows e eventos, ampliando o debate sobre a preservação do patrimônio histórico.
Debate sobre investimento público
Especialistas em planejamento urbano defendem que equipamentos públicos de grande porte mantenham programação contÃnua para garantir o retorno social dos recursos investidos. Estruturas utilizadas de forma esporádica exigem despesas permanentes com segurança, limpeza e conservação, além de sofrerem desgaste acelerado quando permanecem longos perÃodos sem funcionamento.
A falta de utilização regular do Cepop também produz reflexos econômicos. Um calendário permanente de eventos pode estimular o turismo, aumentar a ocupação da rede hoteleira, movimentar bares, restaurantes, serviços de transporte e o comércio, além de fortalecer a cadeia produtiva do entretenimento. Sem essa dinâmica, o potencial do espaço permanece restrito a poucas datas ao longo do ano.
Lógica da gestão municipal
O contraste entre o Cepop e a Praça do SantÃssimo Salvador evidencia duas realidades distintas da polÃtica de eventos de Campos dos Goytacazes.
De um lado, um equipamento público construÃdo com investimento de aproximadamente R$ 100 milhões para sediar grandes espetáculos permanece sem uso contÃnuo. De outro, a Praça do SantÃssimo Salvador recebe estruturas temporárias, gradis e áreas de isolamento que alteram a dinâmica de um dos espaços históricos mais importantes da cidade.
Entre os patrimônios diretamente impactados está o Chafariz Belga, inaugurado em 1904 e fabricado pela Compagnie des Bronzes de Bruxelles, na Bélgica. A estrutura em ferro fundido foi instalada durante o processo de modernização urbana de Campos dos Goytacazes e é considerada uma das poucas peças desse tipo preservadas no Brasil. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o monumento passou recentemente por um processo de restauração para recuperar suas caracterÃsticas originais e preservar um dos principais sÃmbolos da Praça do SantÃssimo Salvador.
Durante a montagem das estruturas para os shows, o entorno do chafariz é cercado e isolado para proteger o monumento do grande fluxo de pessoas. A medida restringe temporariamente o acesso de moradores e visitantes a um dos principais cartões-postais do Centro Histórico durante grandes eventos.
A utilização da Praça do SantÃssimo Salvador para grandes apresentações, enquanto o Cepop permanece praticamente sem uso contÃnuo, mantém o debate sobre a eficiência do planejamento público, a gestão dos equipamentos culturais e o aproveitamento de uma das maiores obras já executadas pela administração municipal. Ao mesmo tempo, reforça a discussão sobre o uso de espaços históricos para eventos de grande porte e os impactos sobre um conjunto arquitetônico e urbanÃstico que integra a memória de Campos dos Goytacazes.
Procurada, a Prefeitura Municipal de Campos ainda não respondeu os questionamentos da reportagem. A matéria está em atualização

