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Campos dos Goytacazes

Revitalização de R$ 111 milhões do Canal Campos-Macaé é cancelada pelo Governo RJ

Instituto Estadual do Ambiente identifica seis pontos críticos no trecho urbano e prevê estudos para novas intervenções de recuperação estrutural

Foto: Divulgação/Secom
Foto: Divulgação/Secom

O projeto de R$ 111 milhões destinado à revitalização do Canal Campos-Macaé, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, foi cancelado pelo Governo do Estado. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) confirmou a decisão em nota e informou que uma nova proposta será elaborada para recuperar trechos considerados críticos do canal.

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Projetado para a recuperação de trechos considerados críticos do canal, o empreendimento, foi aprovado em 2023 pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam), previa obras de canalização, urbanização, paisagismo e implantação de uma pista auxiliar ao longo de aproximadamente três quilômetros da Avenida José Alves de Azevedo, conhecida popularmente com Beira-Valão.

Segundo o Inea, uma vistoria técnica realizada em 23 de julho identificou seis pontos de erosão nas margens do canal, principalmente na região do Parque do Rosário. A partir desse levantamento, o instituto decidiu desenvolver um novo projeto voltado à estabilização das margens e à recuperação estrutural do canal, utilizando informações encaminhadas pela Prefeitura de Campos dos Goytacazes. O órgão também informou que buscará recursos para executar as futuras intervenções.

O que previa o projeto?
Aprovado em 2023, o projeto previa a revitalização de aproximadamente três quilômetros da Beira-Valão, com contenção das margens, paisagismo, construção de pista auxiliar, novas calçadas, melhoria da iluminação pública, reorganização do sistema viário e recuperação do entorno do canal. O financiamento de R$ 111.358.156,15, aprovado pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam), contemplava ações de reurbanização, mobilidade urbana e valorização da área. Apesar da aprovação dos recursos, as obras nunca foram iniciadas. O cancelamento encerra uma das principais intervenções urbanísticas previstas recentemente para Campos dos Goytacazes.

Problemas se acumulam há décadas
Nas últimas décadas, o Canal Campos-Macaé passou a enfrentar diversos problemas ambientais.

Entre eles estão o assoreamento, o lançamento irregular de esgoto, o acúmulo de lixo, a proliferação de vegetação aquática, a ocupação desordenada das margens e processos erosivos que comprometem sua estabilidade.

Nos trechos urbanos, o canal deixou de exercer a função de transporte e passou a integrar principalmente o sistema de drenagem da região.Em outros, principalmente nas áreas rurais e dentro do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, o canal ainda mantém características originais e continua exercendo papel importante na drenagem e na irrigação.

Beira-Valão virou símbolo da degradação
O trecho urbano conhecido como Beira-Valão tornou-se um dos pontos mais críticos do canal.

Além do desgaste das margens, moradores convivem há anos com erosões, odores, descarte irregular de resíduos e degradação paisagística. Nos últimos anos, desmoronamentos localizados passaram a preocupar moradores e comerciantes instalados na Avenida José Alves de Azevedo, uma das principais vias de Campos dos Goytacazes. Foi justamente nessa região que o projeto de R$ 111 milhões previa as maiores intervenções.

Ao longo dos anos, diversas dragagens, retificações e abertura de canais auxiliares foram realizadas para controlar cheias, conduzir águas pluviais e atender atividades agrícolas. Esse sistema de drenagem da Baixada Campista reúne mais de 1.400 quilômetros de canais distribuídos por diferentes áreas da região.

 

Revitalização de R$ 111 milhões do Canal Campos-Macaé é cancelada pelo Inea

Canal Campos-Macaé, em 2023, na altura da Rua Tenente-Coronel Cardoso, próximo ao Mercado Municipal, em Campos dos Goytacazes, com os arcos metálicos em processo de deterioração pela ação do tempo, a pouca vegetação no entorno, com poucas árvores e ipês, e o crescimento de mato entre as placas de concreto pré-moldadas que revestem os taludes das margens do canal.

 

Os Arcos do valão
Em 2010, durante o governo da então prefeita Rosinha Garotinho, a Prefeitura de Campos dos Goytacazes iniciou a revitalização da Beira-Valão, uma das principais intervenções urbanísticas da região central da cidade. A obra recebeu investimento de aproximadamente R$ 18 milhões, com recursos dos royalties do petróleo, e incluiu a recuperação dos taludes do Canal Campos-Macaé, reconstrução do sistema de drenagem e esgoto, pavimentação, implantação de ciclovia, novo calçadão, iluminação cênica e paisagismo.

Inaugurada em dezembro de 2011, a revitalização contemplou aproximadamente 1,3 quilômetro da Beira-Valão, entre a Rua Barão de Miracema e a Rua dos Goytacazes, abrangendo apenas parte do trecho urbano do Canal Campos-Macaé. Como principal elemento arquitetônico, foram instalados 17 arcos metálicos com cabos de sustentação, projetados para sustentar floreiras e plantas trepadeiras sobre o canal, transformando o local em um dos cartões-postais de Campos dos Goytacazes.

Passados mais de 15 anos, as estruturas apresentam sinais de deterioração, com desgaste da pintura, corrosão e perda das características paisagísticas originalmente previstas, com sinais de desgaste provocados pela exposição ao tempo e pela necessidade de manutenção.

 

Revitalização de R$ 111 milhões do Canal Campos-Macaé é cancelada pelo Inea

Canal Campos-Macaé em 1943, na altura da atual Avenida Alberto Torres, em Campos dos Goytacazes. Ao fundo, aparecem a atual Avenida XV de Novembro e o Rio Paraíba do Sul. Hoje, o local corresponde à região da Ponte Leonel Brizola. Foto: Acervo/Reprodução

 

Por que o Canal Campos-Macaé foi construído?

Muito antes de se tornar um dos principais desafios ambientais de Campos dos Goytacazes, o Canal Campos-Macaé representou uma das maiores obras de engenharia do Brasil Imperial.

O Canal Campos-Macaé foi concebido para facilitar o escoamento da produção agrícola do Norte Fluminense, principalmente o açúcar produzido nas fazendas de Campos dos Goytacazes, Quissamã e Carapebus. Até então, a produção seguia em carros de boi até o Porto de Imbetiba, em Macaé, ou percorria um trajeto longo e sujeito às condições climáticas pela Lagoa Feia, Canal das Flechas e Barra do Furado, o que elevava os custos e dificultava o transporte.

O projeto foi elaborado em 1837 pelo engenheiro inglês John Henry Freese e autorizado no mesmo ano pela então Assembleia Provincial do Rio de Janeiro. As obras começaram em 1844, com forte utilização de mão de obra escravizada, e se estenderam por quase duas décadas. O canal foi inaugurado em 1861, mas a navegação regular somente teve início em 1872, com a operação do vapor Visconde.

Considerado uma das maiores obras de engenharia do Brasil Imperial, o canal possui 106 quilômetros de extensão e cerca de 15 metros de largura média, sem contar os diversos canais de derivação construídos posteriormente. À época, era o segundo maior canal artificial do mundo em extensão, atrás apenas do Canal de Suez, no Egito, e à frente do Canal do Panamá.

Seu traçado liga o Rio Paraíba do Sul ao Rio Macaé, atravessando os municípios de Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus e Macaé, além de áreas que atualmente integram o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba. Na área urbana de Campos dos Goytacazes, o trecho é conhecido como Canal do Cula ou Grande Canal.

Além de impulsionar a economia açucareira ao reduzir o tempo e o custo do transporte até o Porto de Imbetiba, de onde a produção seguia para o Rio de Janeiro, o Canal Campos-Macaé desempenhou uma importante função hidráulica. A obra contribuiu para a drenagem de extensas áreas alagadas da Baixada Campista, favorecendo a expansão das áreas agricultáveis, reduzindo a formação de brejos e alterando de forma permanente a dinâmica hídrica da região, tornando-se uma das intervenções de infraestrutura mais relevantes da história do Norte Fluminense.

Da navegação ao sistema de drenagem
A função original do Canal Campos-Macaé começou a perder importância a partir da década de 1870, após a inauguração da Estrada de Ferro Macaé-Campos. O transporte ferroviário, mais rápido e eficiente, reduziu gradualmente o uso da hidrovia para o escoamento da produção agrícola, principalmente do açúcar.

Ao longo do século XX, o canal deixou de operar como rota de navegação e passou a exercer principalmente a função de drenagem da Baixada Campista. Entre as décadas de 1960 e 1970, o Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) realizou uma série de intervenções para adaptar o sistema hidráulico às novas necessidades da região.

As obras incluíram dragagens, limpeza do leito, regularização dos taludes no trecho urbano e o fechamento da ligação direta do canal com o Rio Paraíba do Sul. A alteração reduziu a circulação natural de água e mudou o funcionamento original do canal, que passou a depender de intervenções de manutenção para controle do fluxo e da drenagem.

Nesse período também ocorreu o primeiro tamponamento de um trecho urbano do canal, sobre a antiga Lagoa do Furtado, entre o Rio Paraíba do Sul e a Rua Gil de Góis. A intervenção eliminou parte do traçado aberto e modificou a relação do canal com a paisagem urbana de Campos dos Goytacazes.

Os antigos taludes de terra receberam novo desenho geométrico, com formato inclinado, e permaneceram com revestimento natural de terra e vegetação rasteira. Décadas depois, novos projetos de urbanização passaram a substituir parte dessas estruturas por revestimentos de concreto e intervenções paisagísticas no trecho central da cidade.

Revitalização de R$ 111 milhões do Canal Campos-Macaé é cancelada pelo Inea

Obras de revitalização do Canal Campos-Macaé, em 2010, na altura da atual Avenida Pelinca, em Campos dos Goytacazes, com os tapumes da intervenção, os antigos guarda-corpos de concreto e ferro e os taludes das margens do canal revestidos com placas de concreto pré-moldadas. Foto: Acervo/Reprodução.

 

Patrimônio histórico e desafio ambiental

Além da importância para a engenharia brasileira, o Canal Campos-Macaé é reconhecido como patrimônio histórico e cultural pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). O tombamento estadual, registrado no processo E-18/001.134/2002, ocorreu em 2002 e abrange trechos localizados nos municípios de Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus e Macaé, reconhecendo o valor histórico, paisagístico e hidráulico da obra construída no século XIX.

Mesmo com o reconhecimento oficial, o canal enfrenta desafios de conservação, que envolvem a preservação do patrimônio histórico, a recuperação ambiental e a manutenção da infraestrutura de drenagem. Parte do traçado atravessa o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e mantém características originais da obra imperial. Especialistas defendem que futuras intervenções considerem a proteção do patrimônio, a recuperação dos trechos degradados e o funcionamento adequado do sistema hídrico.

O cancelamento do projeto de R$ 111 milhões recoloca em debate o futuro de uma das principais obras hidráulicas do estado do Rio de Janeiro, cuja recuperação permanece aguardada por moradores e setores ligados ao planejamento urbano e ambiental.

ATUALIZADO ÀS 07h50  •   Da Redação — Produzido pela equipe editorial e direção do portal NF10. Atuamos com apuração rigorosa, checagem de fatos e atualização constante para garantir informação precisa, confiável e relevante para todos.  •  Sugira uma correção: Notou algum erro ou deseja reportar uma atualização? Fale com a redação
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