A proposta de inclusão das regiões Norte e Noroeste Fluminense no semiárido brasileiro se transformou em um embate polÃtico nacional após o veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Projeto de Lei nº 1.440/2019, em agosto de 2025. A medida, que havia sido aprovada pelo Congresso Nacional, previa a reclassificação climática da região e a ampliação de polÃticas públicas, mas foi barrada sob a justificativa de inconstitucionalidade e ausência de estudos técnicos e impacto orçamentário.
Clique aqui para seguir o NF10 no Facebook
De acordo com o governo federal, a proposta não apresentou comprovação cientÃfica suficiente sobre Ãndices de aridez e médias pluviométricas exigidas para enquadramento no semiárido, além de não detalhar os custos relacionados à ampliação de benefÃcios como o Garantia-Safra. O programa federal prevê pagamento de até R$ 1.200 por famÃlia agricultora em caso de perdas por estiagem, o que geraria aumento de despesas obrigatórias.
O projeto inclui 22 municÃpios das regiões Norte e Noroeste Fluminense: Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, São Fidélis, São Francisco de Itabapoana, São João da Barra, Carapebus, Conceição de Macabu e Quissamã, além de Itaperuna, Bom Jesus do Itabapoana, Italva, Laje do Muriaé, Natividade, Porciúncula, Varre-Sai, São José de Ubá, Miracema, Itaocara, Cambuci, Aperibé e Santo Antônio de Pádua.
A reação polÃtica foi imediata. Lideranças regionais, incluindo o ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, articulam a derrubada do veto no Congresso Nacional. A mobilização conta com apoio de prefeitos, pré-candidatos à Presidência da República e ao Governo do Estado, além de assembleias legislativas estaduais e do próprio Congresso Nacional, consórcios intermunicipais e entidades como a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, que defendem a medida como estratégica para o desenvolvimento regional.
O interesse vai além do auxÃlio emergencial. Estimativas de articuladores da proposta apontam que a inclusão no semiárido pode injetar cerca de R$ 22 milhões por ano na economia local, considerando incentivos fiscais, acesso a crédito e novos investimentos produtivos.
Incentivos fiscais e acesso à Sudene
Um dos principais pontos da proposta é a inclusão das regiões na área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Com isso, empresas instaladas nesses municÃpios poderiam acessar benefÃcios fiscais relevantes, como redução de até 75% no Imposto de Renda de Pessoa JurÃdica para novos investimentos.
Além disso, a mudança permitiria o acesso a linhas de financiamento do Banco do Nordeste do Brasil, com juros subsidiados e prazos mais longos, ampliando a capacidade de investimento de produtores rurais e empresas locais. Atualmente, esses benefÃcios são restritos a estados do Nordeste e partes de Minas Gerais e EspÃrito Santo.
Outro ponto previsto no projeto é a criação de um Fundo de Desenvolvimento Econômico do Norte e do Noroeste Fluminense, voltado para financiar infraestrutura, diversificação produtiva e redução da dependência dos royalties do petróleo, que apresentam forte volatilidade.
Debate técnico e impacto econômico
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica, a agropecuária ainda tem peso relevante na economia de municÃpios dessas regiões, sendo diretamente impactada por perÃodos de estiagem irregular. A defesa da proposta se apoia nesse argumento, destacando perdas frequentes de safra e redução do Produto Interno Bruto agropecuário local.
Por outro lado, o governo federal sustenta que a definição de áreas do semiárido deve seguir critérios técnicos estabelecidos por órgãos como o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e o Instituto Nacional de Meteorologia, e não por iniciativa legislativa isolada.
Outro ponto levantado no veto é a ausência de estimativa detalhada de impacto fiscal, o que contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal ao criar despesas permanentes sem previsão de receita correspondente.
Disputa polÃtica e próximos passos
A derrubada do veto depende de votação no Congresso Nacional, onde são necessários maioria absoluta de deputados e senadores em sessão conjunta. A articulação envolve bancadas do estado do Rio de Janeiro e ganha força entre pré-candidatos ao governo estadual, que veem na proposta potencial de impacto econômico e visibilidade polÃtica.
Caso o veto seja revertido, as regiões Norte e Noroeste Fluminense poderão passar por uma mudança estrutural em seu modelo de desenvolvimento, com ampliação de polÃticas públicas, incentivos fiscais e novas oportunidades de investimento.
Enquanto isso, o tema segue no centro do debate entre critérios técnicos e interesses econômicos regionais, com impacto direto sobre agricultores, empresas e a dinâmica econômica do interior do estado do Rio de Janeiro.
Royalties bilionários e baixo desenvolvimento regional
Apesar da busca por novos incentivos, municÃpios do Norte Fluminense, como Campos dos Goytacazes, já figuram entre os maiores beneficiários de royalties do petróleo no Brasil. Ao longo das últimas décadas, a cidade acumulou receitas bilionárias provenientes da exploração da Bacia de Campos, com repasses anuais que frequentemente ultrapassam a casa de centenas de milhões de reais.
Mesmo com esse volume expressivo de recursos, indicadores socioeconômicos revelam desafios persistentes. A economia local ainda apresenta forte dependência do setor público e dos próprios royalties, com dificuldades na diversificação produtiva, geração de empregos e avanço consistente em áreas como infraestrutura e desenvolvimento urbano.
Nesse contexto, a tentativa de inclusão no semiárido também é interpretada como uma estratégia para ampliar o acesso a recursos federais e mecanismos de incentivo, em um cenário de oscilação das receitas do petróleo. A proposta busca criar novas fontes de financiamento e estÃmulo econômico, diante de um histórico de desenvolvimento considerado limitado em relação ao volume de recursos já recebidos.

