Em meio à discussão nacional sobre a criação de passagens obrigatórias para animais silvestres em rodovias brasileiras, a Reserva Biológica Poço das Antas, em Silva Jardim, na Região dos Lagos, já se destaca como exemplo pioneiro no país. É em frente à unidade ambiental administrada pelo ICMBio que funciona atualmente o único viaduto vegetado destinado à travessia de fauna em uma rodovia federal no Brasil.
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A estrutura foi implantada durante as obras de duplicação da BR-101, realizadas pela concessionária Arteris Fluminense, após exigências ambientais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O objetivo é reduzir atropelamentos e permitir o deslocamento seguro de espécies silvestres entre os fragmentos de Mata Atlântica separados pela estrada.
Pensado principalmente para animais terrestres de médio e grande porte, o viaduto é utilizado por espécies como a onça-parda e outros mamíferos sensíveis à fragmentação do habitat causada pela rodovia. Além dele, o trecho que corta a Área de Proteção Ambiental da Bacia do Rio São João recebeu outras 30 estruturas de travessia animal.
São 20 passagens subterrâneas destinadas à fauna terrestre de pequeno e médio porte e 10 passagens aéreas do tipo “copa-a-copa”, voltadas especialmente para espécies arborícolas, como o mico-leão-dourado — símbolo da conservação ambiental na região e espécie ameaçada de extinção.
Mesmo com a vegetação do viaduto ainda em desenvolvimento, monitoramentos já confirmam a utilização da estrutura pelos animais. A expectativa do ICMBio é que, com o crescimento da cobertura vegetal, o local passe a funcionar como um corredor ecológico ainda mais eficiente entre a Reserva Biológica Poço das Antas e áreas florestais localizadas do outro lado da BR-101.

A discussão ganha ainda mais relevância após a aprovação, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 466, que institui o Plano Nacional de Segurança Viária para Fauna Silvestre e prevê a obrigatoriedade da implantação de passagens de fauna em rodovias, ferrovias e estradas em todo o país. O texto agora aguarda análise do Senado Federal.
Segundo o projeto, mais de 400 milhões de mamíferos, aves e répteis morrem atropelados todos os anos no Brasil. O levantamento também aponta que cerca de 72% das unidades de conservação sofrem influência direta ou indireta de rodovias.
Para a chefe do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Mico-leão-dourado, Gisela Carvalho, as passagens são fundamentais para garantir a sobrevivência das espécies.
Isso protege a biodiversidade, especialmente quando pensamos em espécies endêmicas e ameaçadas como o puma, o mico-leão-dourado e a preguiça-de-coleira. O complexo de passagens possibilita a troca genética entre os animais de mesma espécie, fortalecendo sua existência, destacou.
A analista ambiental do ICMBio, Christina Albuquerque, também ressalta que novas estruturas semelhantes deverão ser implantadas futuramente na altura da Reserva Biológica União, outro importante corredor ecológico da região.
Além das obras na BR-101, a Transpetro também desenvolve estudos para implantação de novas passagens de fauna em áreas atravessadas por oleodutos e gasodutos na região. Estruturas experimentais já registraram, por meio de câmeras, a passagem de grupos de macacos-prego, reforçando a eficácia das medidas de preservação ambiental.


