A decisão da Enjoei de encerrar as operações da Elo7 provocou preocupação entre artesãos e microempreendedores que utilizavam a plataforma como principal canal de vendas no Brasil. O marketplace, especializado em produtos personalizados e artesanais, reunia milhares de pequenos vendedores que dependiam da visibilidade digital para manter renda, conquistar clientes e sustentar negócios familiares.
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A Elo7 havia se consolidado nos últimos anos como uma das maiores vitrines online de artesanato do país. Em 2022, antes da aquisição pela Enjoei, a plataforma movimentava cerca de R$ 500 milhões em vendas anuais, com 3,6 milhões de transações e mais de 50 mil vendedores ativos, segundo dados divulgados ao mercado pela própria companhia.
Com o encerramento, vendedores perderam não apenas um espaço de comercialização, mas também alcance digital e posicionamento em buscas online. Muitos pequenos empreendedores utilizavam exclusivamente a Elo7 para vender produtos personalizados, lembranças, decoração, papelaria, moda artesanal e itens sob encomenda. Especialistas do setor avaliam que parte desses profissionais terá dificuldade para migrar rapidamente para plataformas maiores, onde a concorrência é mais agressiva e os custos de divulgação costumam ser elevados.
A Enjoei informou que a plataforma deixou de aceitar novos pedidos imediatamente após a decisão do conselho de administração. Segundo o comunicado oficial, compradores e vendedores com negociações em andamento continuarão recebendo suporte até a conclusão das transações pendentes. A empresa, porém, não detalhou prazo prévio amplo de adaptação para os lojistas antes do anúncio público do encerramento.
Esta medida é o resultado de análises aprofundadas sobre a dinâmica do setor e os obstáculos enfrentados na construção e engajamento de audiência em um ambiente cada vez mais competitivo, afirma em nota divulgado pela Enjoei à imprensa.
Artesãos relatam dificuldades desde aquisição
Desde a compra da Elo7 pela Enjoei, em 2023, vendedores vinham relatando perda de alcance, aumento de taxas e redução nas vendas. Reclamações registradas em plataformas públicas de consumidores apontavam críticas relacionadas à visibilidade dos anúncios, suporte e custos operacionais.
Em uma das manifestações publicadas no Reclame Aqui, um vendedor afirmou que “os abusos constantes através de taxas cobradas aos vendedores começaram” após a aquisição pela Enjoei. Outro comerciante declarou que mantinha loja ativa há mais de 14 anos dentro da Elo7 e relatou forte queda nas vendas após mudanças na plataforma.
Estamos sendo arruinados pelo Enjoei, escreveu o vendedor em reclamação pública registrada ainda em 2024.
O fechamento da Elo7 também reacende o debate sobre a concentração do comércio eletrônico em grandes marketplaces internacionais e nacionais. Analistas avaliam que pequenos produtores artesanais tendem a perder espaço em plataformas generalistas, onde produtos industrializados, importados e de grande escala dominam o tráfego e os investimentos em publicidade digital.
Relação entre Globo, Enjoei e Elo7
A Globo Ventures, braço de investimentos do Grupo Globo, participou do ecossistema de investidores ligado ao crescimento da Enjoei durante a expansão da plataforma no mercado digital brasileiro. A empresa recebeu apoio de fundos e investidores estratégicos ao longo de sua trajetória de crescimento, especialmente durante a fase de consolidação no setor de moda circular e comércio eletrônico.
Fundada em 2009, a Enjoei nasceu como um brechó online voltado inicialmente para venda de roupas usadas, acessórios e itens de moda. A companhia ganhou notoriedade nacional após forte presença em campanhas digitais, publicidade televisiva e parcerias com influenciadores.
Ao longo dos anos, o marketplace atraiu grandes rodadas de investimentos de fundos renomados, como Accel Partners, Insight Partners e Monashees. Antes de ser adquirida pela Enjoei, o Elo7 havia expandido com a compra do site de chás de bebê on-line Lá vem Bebê, em 2021.
Em 2020, abriu capital na B3, tornando-se uma das empresas brasileiras de tecnologia listadas na bolsa de valores durante o ciclo de expansão do setor digital na pandemia.
Já a Elo7 foi criada em 2008 com foco exclusivo em produtos artesanais, personalizados e criativos. A plataforma se tornou referência nacional para artesãos independentes, funcionando como alternativa digital para pequenos produtores que não conseguiam espaço em marketplaces tradicionais. O crescimento acelerado levou a empresa a ser adquirida pela norte-americana Etsy em 2021, em uma operação internacional avaliada em cerca de US$ 217 milhões.
Dois anos depois, em 2023, a Etsy vendeu a Elo7 para a Enjoei, que anunciou a aquisição como estratégia para ampliar presença nos segmentos de decoração, presentes personalizados e artesanato. Na época, a empresa destacou que pretendia integrar tecnologia, logística e base de usuários para fortalecer o marketplace artesanal no Brasil.
O encerramento das atividades da Elo7 marca o fim de uma das principais plataformas digitais voltadas ao artesanato brasileiro. Para milhares de pequenos empreendedores, a plataforma representava não apenas um canal de vendas, mas também reconhecimento profissional, geração de renda e visibilidade nacional para produções independentes que dificilmente encontram espaço nas grandes estruturas do comércio eletrônico tradicional.

