
A identificação de glifosato, o agrotóxico mais usado no Brasil em alimentos ultraprocessados escancara um cenário preocupante para quem consome produtos industrializados diariamente. Durante décadas, a substância foi apresentada como segura, sustentada por um estudo de 2000 que, mais tarde, teve sua credibilidade colocada em xeque. A pesquisa, conduzida sob influência da multinacional Monsanto, foi manipulada, revelação tornada pública no fim do ano passado e que abalou uma das principais bases cientÃficas usadas para autorizar o produto no paÃs.
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Mesmo após a confirmação da fraude, o mesmo estudo seguiu como referência para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na reavaliação do glifosato concluÃda em 2020. A decisão manteve o agrotóxico liberado no mercado brasileiro. Desde então, mais de 1.200 toneladas da substância foram comercializadas no paÃs, ampliando a exposição da população.
Para dimensionar os impactos desse cenário e suas consequências diretas à saúde pública, o programa Conversa Bem Viver ouviu Tamara Andrade, especialista em regulação de alimentos, integrante do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), além de gestora de polÃticas públicas e advogada.
A ideia de que o glifosato permanece restrito à s áreas rurais também não se confirma. Levantamento do Idec encontrou resÃduos do agrotóxico em 31 dos 75 alimentos ultraprocessados analisados na terceira etapa da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacoteâ€. A lista inclui pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos amplamente presentes na mesa dos brasileiros.
Segundo Tamara Andrade, é fundamental tratar o tema com clareza. Para ela, o glifosato deve ser reconhecido como o que é: um veneno. Trata-se de um pesticida desenvolvido para eliminar pragas agrÃcolas, produzido em larga escala e associado, segundo diversas evidências cientÃficas, a riscos como doenças crônicas e maior probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente os que atingem o sangue e o sistema nervoso.
Ao final, leia na Ãntegra a entrevista com Tamara Andrade, especialista em regulação de alimentos, integrante do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), gestora de polÃticas públicas e advogada, para o programa Conversa Bem Viver, do portal Brasil de Fato.

Brasil de Fato: Tamara, é importante para todo mundo entender a dimensão de termos vivido cerca de 20 anos com informações falsas sobre o glifosato. Afinal, o que é essa substância e o que a população precisa saber quando tem contato com ela, seja pela alimentação ou pela água?
Tamara Andrade: O glifosato é um veneno. Ele é um pesticida, usado para eliminar pragas nas plantações. Em um primeiro momento, era aplicado em diferentes tipos de lavoura, como milho, feijão, frutas e hortaliças. Com o avanço das sementes transgênicas, especialmente da soja, o uso do glifosato passou a ser ainda mais intenso, porque essas culturas foram desenvolvidas para resistir ao veneno.
Sempre foi um produto fabricado em larga escala e existem diversas evidências cientÃficas sobre seus potenciais malefÃcios à saúde, como o desenvolvimento de doenças crônicas e o aumento da probabilidade de alguns tipos de câncer, especialmente cânceres do sangue e do sistema nervoso. Não existe uma relação imediata de causa e efeito, mas sim uma associação crescente com a exposição contÃnua.
Às vezes as pessoas têm a sensação de que qualquer contato com o glifosato já representa uma condenação à doença. É assim que funciona?
Não exatamente. Não é o consumo pontual de um alimento contaminado que vai gerar uma doença grave no dia seguinte. O problema é a exposição constante, diária, ao longo dos anos. Esse contato repetido aumenta os riscos para a saúde e pode, sim, contribuir para o desenvolvimento de doenças mais sérias com o passar do tempo.
Na terceira fase da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacoteâ€, o Idec identificou glifosato em 31 dos 75 ultraprocessados analisados. Esse número chama atenção?
Chama muita atenção. Em nenhuma das edições da pesquisa menos da metade dos produtos testados apresentou ausência de glifosato. Ele aparece com muita frequência, porque está presente nas matérias-primas dos ultraprocessados, como trigo e milho. Ao longo do processo industrial, o resÃduo não desaparece. Ele persiste no produto final, no ambiente e, consequentemente, no nosso organismo.
Entre os produtos analisados estão pães, biscoitos, bolachas recheadas, embutidos e salgadinhos. O que esse dado revela?
Revela que os ultraprocessados não são mais seguros do ponto de vista da contaminação por agrotóxicos. Existe a ideia de que o problema está apenas no campo, mas isso não é verdade. Esses resÃduos chegam até a mesa do consumidor urbano e passam a fazer parte da alimentação cotidiana, quase como um tempero invisÃvel.
Diante desse cenário, o Idec entrou com um pedido formal junto à Anvisa. O que exatamente está sendo solicitado?
Estamos pedindo a reavaliação imediata do glifosato. Ou seja, que a Anvisa volte a analisar se a substância deve continuar autorizada no Brasil. Um dos estudos mais importantes usados para justificar a permanência do glifosato no mercado foi considerado fraudulento, o que muda o conjunto de evidências cientÃficas disponÃveis.
Existe alguma resposta da Anvisa até agora?
Ainda não. Esse tipo de processo costuma ser longo, tanto pelo tempo técnico de análise quanto pelas pressões econômicas envolvidas. Estamos falando de um dos agrotóxicos mais utilizados no paÃs, com interesses muito poderosos por trás.
As empresas citadas no estudo demonstraram preocupação com os resultados?
Todas as empresas são notificadas após a divulgação dos resultados e sempre respondem. Algumas buscam entender melhor a cadeia produtiva, outras apresentam seus programas de controle de qualidade. Mas todas afirmam que não cometem nenhuma ilegalidade e, de fato, não cometem, porque não existe hoje um limite legal estabelecido para resÃduos de agrotóxicos em ultraprocessados.
Isso revela um problema anterior à fiscalização, que é a ausência de lei?
Exatamente. Falta regulamentação. Sem limites definidos, não há como caracterizar uma infração. Isso mostra a urgência de aprimorar a legislação brasileira, que hoje é muito permissiva, inclusive quando comparada a outros paÃses.
O Brasil adota padrões diferentes dos internacionais?
Sim. Um exemplo claro é o glifosato na água. Na União Europeia, o limite permitido é de 0,1 micrograma por litro. No Brasil, esse limite chega a 500 microgramas por litro. É uma diferença enorme, fruto de uma regulamentação mais frouxa.
Para finalizar, que orientações práticas você daria para quem vai ao mercado?
Não é preciso ter medo dos alimentos in natura, como frutas, verduras e legumes. Sempre que possÃvel, vale priorizar feiras e produtores locais. No caso dos industrializados, é fundamental ler os rótulos, especialmente a lista de ingredientes. Quanto menor e mais compreensÃvel essa lista, melhor. E, claro, reduzir o consumo de ultraprocessados sempre que possÃvel.